Página Inicial Data de criação : 08/02/20 Última actualização : 08/07/08 02:55 / 59 Artigos publicados
 

IKEA: enlouqueça você mesmo!  Inserido Wednesday 16 April 2008 13:12

Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros.

Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja.  Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA?             São ambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza perante os funcionários.

Receio que eles percebam, pelo meu comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é evidente que estou na «Iqueia».

As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, continua a ser saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros.

Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos.

Percebi melhor o nome do móvel! É preciso vir ao IKEA com uma besta de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias.

É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira engraçada.

Por outro lado, há problemas de solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes. A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no trabalho que tinha sido iniciado pela primeira.

Resultado: o cliente paga dois transportes e duas montagens e fica com um móvel incompleto.

Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas como sou eu, aborrece--me um bocadinho.

Numa loja que vende tudo às peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.

Que fazer, então?

Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade dos confetti num dia e a outra metade no outro.

E os suecos que montem tudo, se quiserem receber.

 

in Visão, Ricardo Araújo Pereira (Gato Fedorento)

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Todos os comentários feitos ao artigo :
IKEA: enlouqueça você mesmo!

  • mailto advogadadodiabo

    Thu 17 Apr 2008 01:52

    Peço imensa desculpa, mas não foi mesmo essa a minha intenção. Fiquei foi deveras entusiasmada, pois tinha adorado esse texto quando o li. e Não me contive a manifestá-lo. Mas longe de mim, chamar-lhe a atenção para o facto de não mencionar o autor. Eu própria se tivesse acesso a ele, pois li-o na altua na revista visão, tinha o publicado, pois esta mesmo muito giro. Fez bem em publicá-lo. E acredite que não o fiz por mal. Um beijinho e boa noite

  • mailto advogadadodiabo

    Wed 16 Apr 2008 22:57

    Já tinha lido este texto na visão e também o acho deveras engraçado. Acho que foi uma boa ideia mostrá-lo, pois o Ricardo Araújo Pereira não é só um bom Gato Fedorento como escreve que é uma maravilha. Eu que sou ua grande fã dele agradeço.
    Beijocas

  • mailto Vitor Faria

    Wed 16 Apr 2008 18:52

    Há outra solução. Vai-se lá, pega-se no papelinho e lápis que eles ofereçem para anotar as compras e dá-se uma volta a apreciar o pessoal carregados que nem bestas, tentando meter nos carros tipo mini carga para um camião tir. Com estas cenas acabamos por não comprar nada e na semana seguinte voltamos para mais um lapitos, um papelito e uma sessão de cargas leves nos minis.
    Resultado: Poupa-se uns tostões, ganha-se uns lápis para os putos lá de casa e aproveitam-se as sessões das cargas burras, com algumas cenas de morrer a rir.
    Como a vida está pela hora da morte até que não é má ideia. Convem é ir tipo passeio a pé. Porque a gasosa já se sabe...
    E ainda dizem mal dos suecos. Má vontade.

  • delirios ibericos

    Wed 16 Apr 2008 15:50

    FANTÁSTICO!!!!!! mas eu sou um pouco suspeito para falar porque até vou ao IKEA bastantes vezes (o pequeno-almoço é baratinho = 1€), e confesso que dá sempre um certo gozo ser proletário e chagra a casa e pegar na caixa de ferramenta e voltar aos meus tempos de infância e construir as peças de mobiliário (tipo Lego ou Meccano)...... Já quanto ás hérnias dispenso.....